As experiências oníricas conscientes como meio adicional de investigação dos conteúdos ctônicos

por Cleber Monteiro Muniz

"Até agora, tens pensado que teus cinco sentidos te informam sobre o mundo exterior.

Não é assim, não há tal mundo exterior nem há tal mundo interior. Estes são ilusórios conceitos que não podem penetrar mais além das formas. O real é o que não é forma e que, sendo vida, é tudo quanto É."

Trecho extraído do livro "El Vuelo de la Serpiente Emplumada", de Armando Cosani, e referente a uma carta recebida por ele de um amigo.

Por nos permitirem a transposição do limiar das zonas obscuras carregando conosco uma centelha luminosa, os sonhos lúcidos podem ser um instrumento adicional de investigação do mundo psíquico subterrâneo.

Como instrumento de cognição extraído de experiências humanas por muito tempo marginalizadas e a ser submetido ao aperfeiçoamento científico, esse tipo de sonho tem muito a oferecer. Para aqueles que o experimentaram, ele é a prova de uma extensão sutil do ser.

Os sonhos lúcidos e experiências semelhantes nas quais há perda dos sentidos externos, como a meditação e as experiências de quase morte, situam-se no limite impreciso entre a experiência científica e a religiosa. Eles podem ajudar a aumentar a zona de intersecção entre ambas, permindo que a ciência transcenda o tabu de não penetrar no domínio do usualmente considerado incognoscível.

Métodos funcionais de investigação não podem ser descartados simplesmente por não se encaixarem em moldes egóicos arbitrários. Além da reconstrução constante dos métodos, é preciso que haja uma reconstrução constante do cientista. Do contrário ele não os acompanha por estar submetido a formas mentais obsoletas. Os sonhos lúcidos não são acessíveis a todos mas apenas àqueles que se tornam sensíveis, voluntária ou involuntariamente, à realidade fantástica.

As viagens oníricas conscientes não são um meio alternativo de investigação da psique mas sim adicional. Como não se antagonizam com os métodos usuais, podem ser acrescentadas a eles.

Uma consciência desperta e sincera na busca do si mesmo explora o universo onírico à noite com mais eficiência e menos riscos do que uma consciência adormecida. Além disso, é mais receptiva aos conteúdos contatados por compreender que são oníricos e que, portanto, não ameaçam os caprichos egóicos que porventura existam. A compreensão de que se está em sonho fornece a possibilidade de experimentar situações impossíveis para o mundo "real", revelando significados que de outra forma permaneceriam na escuridão.

Na verdade, os sonhos sempre compensam as carências da vida consciente e, quando são lúcidos, essas compensações entram no campo visível, sendo assimiladas na vida.

A prática da imaginação ativa, método usado para contato com conteúdos ctônicos, é, em seu aspecto mais profundo, o início de uma experiência transcendente de caráter onírico. Um sonho lúcido é uma prática de imaginação ativa levada a níveis muito distantes e na qual a consciência se mantém coesa, desperta e desprendida do adormecido corpo físico, totalmente focada na introspecção.

O que há além das fronterias que acessamos nesse estado não usual de consciência? Que mistérios encerram?