A Psique – A Redescoberta da Alquimia

Por Sérgio Pereira Alves (*):

Quando C. G. Jung percebeu a importância de tratados alquímicos enquanto relatos projetivos de um material inconsciente estava assim redescobrindo um antigo paradigma há muito perdido no tempo. Nestes tratados o alquimista usava de uma linguagem simbólica cujo interesse pelos segredos da matéria, e, seu método de investigação completamente isento de intenção, eram usados para nos mostrar processos inconscientes.

No caso da alquimia, o artifex se identificava com o opus, mas preservava esta relação de maneira completamente impessoal e objetiva. E sua investigação era restrita à observação quanto à natureza do experimento. E, em seu relato simbólico, ele projetava seu próprio inconsciente na escuridão da matéria. Isto é, na tentativa de elucidar um mistério, ele projetava outro mistério, a sua própria profundeza psíquica.

E este não era um método intencional. A projeção acontece, ela nunca é produzida. E, como toda projeção é vivenciada como realidade, o que era observado, era tratado como uma propriedade da matéria; mas na realidade, o que ele vivenciava era seu próprio inconsciente.

Podemos, sem sombras de dúvidas, falar de projeções inconscientes à medida em que observamos os vários textos alquímicos que relatam experiências onde ocorrem alucinações ou visões. Nesta imagem simbólica usada nestes textos, pode-se claramente observar todo um empenho, que projetivamente se resumia na busca dos segredos de seu próprio inconsciente, no encontro com a sombra e no restabelecimento do contato com o feminino.

Sob a forma arquetípica do hierosgamos, o casamento divino, estava firmada a Grande Obra alquímica, onde os opostos se fundem formando uma só unidade, o arquétipo da totalidade, a pedra filosofal, a busca pela imortalidade ou pela juventude eterna.

O paralelo que podemos traçar entre psicologia e alquimia está na semelhança dos diálogos projetivos entre o homem e a matéria, ou entre psique e soma. Jung já dizia que um processo analítico e dialético, que ocorre entre consciência e inconsciente se assemelharia a um processo alquímico. Onde o consultório corresponderia ao vasus hermeticus, no qual se processaria a combinação e a transformação das substâncias, para a obtenção do elixir da vida.

Para que ocorra uma mudança de paradigma dentro do modelo proposto, precisamos estabelecer uma relação mais impessoal e objetiva entre soma e psique, semelhante à dos alquimistas em suas investigações. A fim de que possamos recuperar e restabelecer nossa inteireza a partir de uma ação mais unificada. O contrário resultaria em ruptura, desequilíbrio, e consequentemente doença.

Blake, poeta e visionário, em um de seus Provérbios do Inferno escreveu: "Aquele que deseja mas não age, cultiva pestilência". Reich acreditava que havia uma conexão entre doença fatal e o caráter daqueles a quem ela humilha.

Ainda não se sabe muito sobre a simbolização dos processos somáticos. Existem estudos preliminares de motivos oníricos relacionados com: doenças cardíacas, epilepsia, paraplegia, asma, alcoolismo, hipertensão envelhecimento, ciclo menstrual, gravidez e câncer.

Existem ainda estudos ( As Variáveis Psicológicas no Câncer Humano, Gengerilli e Kirkner, 1954) que estabelecem uma correlação significativa entre sintomas somáticos e características psicológicas do paciente. Desta maneira, nós conseguimos noções correspondentes das doenças e personalidades; e mais, que a dinâmica da personalidade se torna relevante ao grau de crescimento de tumores malignos.

Leopold Stein entrevistou 200 pacientes de um hospital não psiquiátrico, sem conhecimento prévio de seus diagnósticos, e descobriu que a maioria deles caiu doente numa época em que as circunstâncias de vida induzia uma sensação de desamparo, abandono e desilusão.

Jung acreditava que alguns tipos de imagens psíquicas estão mais relacionadas com o corpo do que outras, e até mesmo, à partes diferentes do corpo.

Sem termos que voltar à Grécia antiga onde já se falava na relação corpo/mente, podemos citar Hermanus Boerhaave que escreveu o seguinte: "Afetos violentos ou de longa permanecia atacam e corrompem o cérebro, nervo, temperamento e músculos, de maneira tão extraordinária e efetiva, e consequentemente, em acordo com suas diversidades e duração, são capazes de produzir e criar praticamente todo tipo de doença". Raivas contidas, falas engolidas, sentimentos não expressados, emoções mal elaboradas, criarão sintomas que irão se expressar exatamente onde você mais se conteve.

Todo e qualquer sintoma invasor traz consigo um conteúdo simbólico como uma resposta avassaladora, que tenta nos alertar de nosso isolamento e, destruir nossa estrutura rígida para um retorno à saúde e ao equilíbrio. E nossa tarefa seria recuperarmos nossa inteireza para compreendermos melhor este sinal de alerta, efetivando uma transformação e expansão em relação à nossos próprios limites anteriores.

Normalmente nos colocamos tão alienados de nossa realidade que se faz necessário um invasão radical para romper nossa estrutura rígida.

Portanto devemos estar alertas para não repetirmos velhos padrões. Se estamos falando de transformação e expansão, estamos falando de mudanças profundas onde não haverá espaço para o velho "eu". A doença não nos deixará viver como antes. Na realidade, ela vem para destruir apegos e atitudes prejudiciais à nossa inteireza.

Meier entende que existe uma conexão entre a cura de doenças somáticas por meios de processos psicológicos e o fenômeno da sincronicidade.

Isto significa que existe uma relação entre psique e soma, mas que não é uma relação de causa e efeito. Soma e Psique formam um par de opostos, cuja reconciliação em caso de distúrbio, parece depender da emergência de um símbolo, e este símbolo é o tertium, um terceiro componente, uma força maior que nos forja os sintomas corporais.

Quando Paracelsus nos fala de sintomas, devemos também nos recordar de sua história etimológica que significa "a coincidência em um" ou "a convergência de pelo menos duas magnitudes". A palavra grega symptoma tem como sinônimo latino a palavra coincidentia.

Parece então que a cura só pode acontecer através da constelação de um tertium - um símbolo ou arquétipo que surge como um evento sincronístico, uma coincidência significativa, e não como uma cadeia de causa e efeito.

Os distúrbios entre soma e psique são melhores vistos como manifestações equivalentes de um poder o qual está obstruindo o fluxo livre da energia vital. Eles expressam as obstruções e os ferimentos da alma. E o homem só pode descobrir o que é preciso para a restauração do equilíbrio, escutando e refletindo sobre os movimentos sutis da alma à medida que ela se expressa em sensações corporais, sentimentos, emoções, imagens, idéias e sonhos.

Esta atitude estaria consolidando a mudança para um este paradigma em relação à doença e a saúde. Precisamos retomar algumas atitudes alquímicas antigas, e encarar a doença como resultante de alguma transgressão contra uma força superior; e sua própria manifestação, como um sintoma de alienação do homem em relação à sua própria alma ou essência. O efeito que a psique tem sobre o soma, ou vice-versa, torna-se insignificante frente à força que aflige os dois.

Numa atitude verdadeiramente simbólica, a cura constitui uma questão de contatar esta força, este Deus Irado, que é responsável por nossa doença, para que possamos descobrir o mistério de nossa aflição, e talvez, o milagre de nossa cura.

BIBLIOGRAFIA

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(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)