A Prática Psicoterápica

Por Sérgio Pereira Alves (*):

A psicoterapia não é um método simples que possa ser comparado a uma conversa de bar com um amigo, mesmo que este saiba lhe escutar ou que lhe dê bons conselhos. Antigamente entendia-se psicoterapia como uma espécie de um conselho energético ou paternal, talvez numa tentativa de convencer o doente de que sua queixa ou o sintoma eram "apenas psíquicos" e, portanto, não passavam de uma imaginação doentia.

Daí surgiram as diversas abordagens e algumas escolas com concepções diametralmente opostas. Inicialmente o método francês da terapia pela sugestão, hipnose, e outros de reeducação da vontade ou métodos de persuasão, a psicanálise de Freud, com ênfase na sexualidade e no inconsciente, o método educativo de Adler com ênfase na tendência ao poder e o treinamento autógeno, só para mencionar os mais conhecidos.

Cada um desses métodos tem sua razão de ser baseados nas histórias pessoais e na psique de seus representantes. Se levarmos em conta todas as variáveis físico-psico-culturais que interferem no processo da criação de uma obra, como também na ênfase dada por cada um deles na prática psicoterápica, logo perceberemos a relevância dessas interferências.

Na psicoterapia o processo é mais complexo, e pelo fato de estarem presentes dois sistemas psíquicos interagindo, paciente-terapeuta, e uma vez que a individualidade de cada um desses sistemas é infinitamente diversa, foi-se logo percebendo a variedade de interpretações dos dados da experiência humana. A resistência do paciente às tentativas do terapeuta em hipnotizá-lo era uma dessas possibilidades de interpretação. Descobriu-se que esta resistência fazia parte de uma estrutura neurótica relacionada ao medo da recordação de passagens dolorosas, como também, de qualquer distúrbio na relação médico paciente.

Jung valorizava muito as relações humanas na situação analítica. Para ele o psicoterapeuta deve se despojar de sua superioridade no saber e de toda e qualquer vontade de influenciar o outro. O analista é livre para se relacionar espontaneamente com a realidade humana de seu paciente. O analisando coloca-se no mesmo nível do analista e fala com alguém que ele pode ver.

Isto significou optar pelo método dialético através do qual se cria um espaço para que o outro se manifeste tendo a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível sem que o terapeuta o limite com seus pressupostos. O terapeuta precisa ter um cuidado todo especial e atenção para que a sua psique não interfira de forma danosa no processo terapêutico.

Jung ainda na época em que era presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena foi quem percebeu a necessidade e instituiu a análise de formação com o objetivo de, entre outros, ajudar o analista a trabalhar as questões levantadas a partir de um material trazido pelo paciente.

Jung também diz que é a Freud que devemos a inestimável descoberta de que o analista também têm complexos, sendo estes um dos pontos cegos, que atuam como outros tantos preconceitos e complexos. Isto foi percebido ao longo da prática, observando a dificuldade de terapeutas em interpretar ou conduzir o paciente a uma maior compreensão de si mesmo e conseqüente cura. Resumindo, aquilo que não está claro para nós, nos leva a impedir que se torne consciente para o paciente.

Com o surgimento da Psicanálise o conceito de psicoterapia foi totalmente reformulado pois esta passou a exigir uma conscientização das causas dos conflitos e tornou-se a condição básica preliminar de todas as formas mais recentes de terapia.

Dentro de sua perspectiva, Jung já defendia a idéia de que a interferência que ocorria na atitude do paciente, descoberta por Freud e denominada de transferência, era uma ocorrência inteiramente normal em qualquer relacionamento, e que ocorria com freqüência. Portanto, ela não apenas deve ter uma causa como também uma finalidade. Ele se tornou interessado na questão sobre qual o significado que a transferência poderia ter .

A análise do inconsciente, sob o ponto de vista de Jung, está centrada em torno da interpretação dos sonhos. Isto é, um de seus objetivos é fazer o paciente incorporar os conteúdos do inconsciente à consciência, através de uma maior compreensão de seus próprios sonhos; visto que a maior causa da neurose é a discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente. Podemos observar isto em nossos próprios sonhos, pois eles nos dizem coisas que não sabemos e que não temos o menor desejo de saber, a respeito de nós mesmos.

No início quando Jung ainda procurava desenvolver um maior contato com o inconsciente e usava a técnica Freudiana de interpretação de sonhos, que tem como premissa o fato de que os sonhos são uma satisfação de desejos reprimidos; ele pensava que quando a análise estivesse terminada, os seus pacientes continuariam mantendo um contato adequado com o inconsciente através da compreensão de seus sonhos. Mas isto não acontecia. E foi somente depois dele próprio não compreender uma grande quantidade de seus sonhos que percebeu o quanto inadequado este método era. E assim se viu obrigado a pesquisar mais.

Sua forma de investigação era totalmente empírica na qual ele observava e recolhia informações de seus pacientes, como também fazia um grande esforço para compreender seus próprios sonhos numa tentativa de elucidar esta lacuna existente entre as expressões conscientes e inconscientes. Ele nos relata em suas memórias que se não fosse por sua família, casa e profissão, ele não teria tido forças para suportar a tarefa árdua de confronto com o inconsciente. Ele ainda cita a estória de Nietzche como exemplo desta mesma empreitada que ao escrever "Assim falou Zaratustra" se viu jogado como uma folha solta numa ventania porque ele não tinha raízes nem obrigações com o mundo externo. Pelo exemplo acima podemos perceber o quanto é desastroso quando o inconsciente se sobrepõe à consciência. Como também o é quando privilegiamos a consciência em detrimento do inconsciente. O equilíbrio psíquico depende da comunicação entre estas instâncias, e a promoção deste diálogo é o cerne da psicoterapia analítica. É um grande risco, quando tentamos nos afastar das questões corriqueiras e familiares de nosso mundo consciente para encararmos algo inteiramente desconhecido do mundo inconsciente. Daí também a necessidade da presença de um terceiro, o terapeuta, que ajuda a promover este confronto entre a consciência e o inconsciente para que este ocorra de forma menos acidentada.

Jung escreve, em Psicologia e Alquimia , que a máscara do inconsciente não é rígida. Ela simplesmente reflete a nossa própria face quando nos voltamos para ele. Hostilidade lhe dá um aspecto ameaçador e benevolência suaviza os seus traços. Se nós pudéssemos aceitar com tranqüilidade os conteúdos inconscientes, com certeza descobriríamos que eles não são tão ruins assim. E esta aceitação não quer dizer que devamos inverter a polaridade das coisas e afirmar que estas experiências são boas.

É a nossa realidade judaico-cristã nos impõe uma visão que nos remete a um dualismo de bem e mal, punição e redenção. Por outro lado também ninguém poderá nos convencer de que, quando sofremos ou percebemos algum aspecto negativo de nós mesmos, é bom. Jung pelo menos conseguiu colocar isto de uma outra maneira. Barbara Hannah nos relata que após ter sonhado com um aspecto de sua sombra, do qual ela já havia previamente trabalhado, procurou Jung que lhe disse o seguinte: "Agora sua consciência tem menos brilho, mas é muito mais ampla. Você sabe que como uma mulher indiscutivelmente honesta, você também pode ser desonesta. Isto pode ser desagradável, mas é verdadeiramente um grande ganho".

Mas apesar de ser um grande ganho, é extremamente doloroso. Devemos ter em mente que se submeter a este processo, fazer análise, é um ato de coragem. Confiar-se ao inconsciente sem qualquer constrangimento, ou racionalizações é uma das condições para o desenvolvimento do processo analítico. Esta não é uma atitude de fácil envergadura, já que nossa cultura reforça uma postura unilateral da consciência.

Quando em 1900 Freud escreveu "A Interpretação de Sonhos", as comunidades científicas e religiosas já haviam perdido a noção de que os sonhos tivessem qualquer significado. Logo após veio Jung que, depois de seu rompimento com Freud, por volta de 1913, procurou o seu próprio caminho na investigação do inconsciente ocupando-se com seus sonhos, fantasias e memórias de sua infância, dando forma a uma nova abordagem que ele veio a chamar de Psicologia Analítica. Naquela época começou a confrontar as figuras do inconsciente usando uma técnica de diálogo interno desenvolvida a partir de seus experimentos de associação livre de palavras que mais tarde denominou imaginação ativa. A sua compreensão dos sonhos diferia daquela que os considerava somente como material reprimido, e os colocava como representações autônomas inconscientes numa relação compensatória com o ego. Hall ressalta que os sonhos são uma declaração simbólica, mas não são uma versão disfarçada de um material reprimido não aceitável.

Um dos argumentos usado por Jung para discordar das afirmações de Freud a respeito dos sonhos serem constituídos por material reprimido foi que desta forma, o inconsciente seria considerado somente um receptáculo deste material, e assim estaríamos reconhecendo a supremacia da consciência e do ego, como centro da consciência, sobre o inconsciente. E que também este último não teria nenhuma função criativa em relação ao material onírico; o que não ocorre na realidade. Um famoso exemplo desta criatividade nos relata o químico alemão F.A. Kekulé, no final do século passado , a respeito de um sonho que lhe veio em seu auxílio: "Eu virei a cadeira para a lareira e estava meio dormindo. Os átomos flutuavam diante de meus olhos... dançando e girando como cobras. E veja o que aconteceu! Uma das cobras mordeu o seu próprio rabo e a imagem girava diante de mim. Como um relâmpago eu acordei e passei o resto da noite trabalhando nas conseqüências desta nova hipótese". As conseqüências, como vocês sabem, foram a descoberta da fórmula do benzeno. E numa convenção científica em 1890 ele aconselhou: "Aprendam a sonhar, senhores".

O mundo dos sonhos é muito sutil, efêmero, abstrato e irreal. Não podemos acreditar nas imagens oníricas apenas quando elas nos parecem agradáveis, e quando nos parecem ruins, as relegarmos à apenas uma produção involuntária de nosso inconsciente sem o menor sentido.

Nossa dificuldade na compreensão da natureza dos sonhos, se deve ao fato de igualarmos sua imaterialidade com irrealidade, em vez de reconhecermos esta imaterialidade como uma realidade a ser penetrada.

É a esta falta de significado que a psicoterapia se refere ao ocupar-se do confronto dialético entre consciência e inconsciente. E é através deste diálogo que se promove o que chamamos "cura".

Bibliografia:

COSHEAD,D., HILLER,S., Dreams- Visions of the Night, Crossroad.: New York. 1976.

JACOBY, MARIO, O Encontro Analítico - transferência e relacionamento humano. São Paulo.:Cultrix, 1987.

JUNG, C.G., A Prática da Psicoterapia, Petrópolis.:Vozes, 1988

HALL,J., The use of dreams and dream interpretation in Analysis, in STEIN M., (Ed.), Jungian Analysis, Shambhala,: Boulder & London, 1984.

WILLIAMS,S.K., Jungian-Senoi Dreamwork Manual, Berkeley.: Journey Press, 1980.top2.gif (813 bytes)


(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)