Grandes Sonhos e o Caminho da Transformação

Por Sérgio Pereira Alves (*):

Quando me perguntam o que são os grandes sonhos, para responder, primeiro devemos partir de uma consideração de que os sonhos são mensagens que recebemos de alguma instância de nosso inconsciente, a respeito de algum conteúdo de nossa estrutura psíquica.

A princípio, o grande sonho teria o mesmo significado de um sonho comum, mas com uma dimensão mais ampliada. Uma mensagem mais significativa, orientada para algum conteúdo mais específico e mais profundo, que se origina de uma instância proporcionalmente maior, a qual, em Psicologia Analítica, chamamos de Self ou Totalidade.

Os grandes sonhos são aqueles relacionados com nossas experiências mais profundas, onde as imagens produzidas tem algo de sobre-humanas, que diferem de nossas experiências diárias no sentido de não pertencerem àquelas diretamente criadas pelo ego ou pelo lado consciente e unilateral de nossa personalidade.

Podemos trabalhar ainda com a suposição de que os grandes sonhos são um dos meios mais primários de expressão das energias que vão além das fronteiras do ego em sua luta e necessidade de sobrevivência. Mas isto não quer dizer também que os sonhos negligenciem estes mesmos níveis humanos aos quais todos nós estamos sujeitos.

Uma diferença entre uma abordagem meramente personalizada do sonho e um grande sonho, é exatamente esta característica sobre-humana (figuras aladas, mitológicas; situações enigmáticas ou mágicas) que nos afeta profundamente. Uma mensagem direta do Self, de nosso ser como um todo, para nos mostrar como anda a nossa disposição psíquica presente; e muitas vezes, nos dando a solução para algum conflito, ou mesmo tomando a iniciativa compensatória de reorganizar alguns destes conteúdos internos para nos restaurar o equilíbrio.

Me parece que qualquer sonho possui este material que não está diretamente ligado com a consciência do ego e é portanto, um produto de alguma outra fonte criadora. Nos permitindo deste modo, trabalhar com qualquer sonho a medida que fazemos a devida ampliação de seus conteúdos para entrarmos em contato com sua parte mais significativa.

Jung desenvolveu o que chamou de "ampliação" – parte de seu método sintético – no trabalho com sonhos, onde ele estabelecia o contexto pessoal de um sonho, ligando-o com imagens universais. Levando assim, o sonhador a ver aquilo que lhe é revelado, como único, mas de significação universal, fazendo uma síntese tanto dos padrões pessoais quanto coletivos. Assim, podemos dar uma significação dos conteúdos oníricos para além do ego. Procurando e focando nossa atenção nos símbolos que possuem um sentido mais universal ou transpessoal. E geralmente, a experiência direta com estes símbolos é acompanhada por sentimentos de terror, respeito, ou uma sensação de suspense por estarmos diante de algo grande, poderoso.

Os grandes sonhos são sonhos que por seus simbolismos vívidos, possuem uma relevância para com o nosso mito pessoal, nosso caminho; e para com toda a nossa disposição no trato diário. E eles nos são enviados para nos inspirar confiança para enfrentarmos com maior sobriedade as transições mais importantes de nossas vidas.

Os grandes sonhos nós raramente esquecemos. Mesmo que não tenhamos compreendido intelectualmente o seu significado, eles irão sempre permanecer em nossa memória, atuando e nos influenciando, dentro de sua referida perspectiva. Como uma mensagem significativa e específica do Self. Atuando na restauração de nosso equilíbrio. Sempre num sentido ao qual chamamos de prospectivo, de aprofundamento nas camadas de nosso substrato psíquico, com um objetivo direcionado para um alargamento de nossa consciência, e conseqüentemente, maior compreensão de nós mesmos e do mundo.top2.gif (813 bytes)


(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)