O Eixo Ego-self :a manifestação do arquétipo curador nos sonhos.
Por Sérgio Pereira Alves
(*):Mais uma vez estamos aqui para esta série de palestras sobre sonhos. E mais uma vez, fico feliz em perceber o interesse das pessoas por este assunto ainda tão pouco desvendado. Independente do interesse que impulsiona vocês a procurarem maior conhecimento do assunto, eu o entendo como uma tentativa de busca de significado e melhor entendimento de si-mesmo. Isto é importante, na medida que em nossa cultura, a educação é orientada para uma adaptação à realidade externa. Não existe muita preocupação em ajudar o indivíduo a se aproximar mais de sua natureza e contradições. Nem a levar a sério as intuições e as imagens que surgem de sua alma.
A finalidade da existência humana é a de criar cada vez mais consciência. O que não percebemos, é absorvido de uma maneira subliminar, e mais tarde este material retorna à consciência como uma intuição, ou através de um trabalho intenso de reflexão. Em última instância, a palavra final é sempre da consciência. Nós não só percebemos, reagimos e experimentamos, como ainda temos a capacidade de voltar ao vivido e percebido. Através de uma atividade criativa de reconhecimento do mundo exterior e interior promovemos nossa auto-transformação. Portanto, apesar de negligenciarmos alguns fatos, eles acabam voltando. Brotando na consciência como um segundo pensamento; aquela vozinha interna que difere de nosso pensamento racional, ou ressurgindo na forma de sonhos.
Daí vem o entendimento de que os sonhos são expressões específicas do inconsciente. Numa tentativa de restauração do nosso equilíbrio interno, eles se tornam um dos meios mais importantes no processo de auto-investigação.
Trabalhar os próprios sonhos é uma forma de você se conhecer mais, e a linguagem usada é a simbólica. Na realidade eles parecem ser arquitetados ou produzidos por uma inteligência que não é humana. E fogem por completo de um jeito disciplinado de se expressar, tornando-se difíceis de serem compreendidos.
A consciência não pode julgá-los através de seu ponto de vista, pois são parte de um mundo distinto. Os sonhos não seguem a coerência de uma narrativa que tem início, meio e fim. Suas dimensões de espaço e tempo são diferentes. Nesta dimensão onírica se misturam pessoas de épocas diferentes. Pessoas adultas se sonham crianças, um amigo possui um jeito de um outro, uma criança sonha brincar no quintal de sua casa e quando ela pula o muro, ela cai no quintal da casa de seu tio lá no interior. Imagens um tanto contraditórias para a nossa razão, e outras banais como perder um trem ou uma porta fechada, podem adquirir uma significação psíquica poderosa que acordamos perturbados.
Aconselho a quem quiser trabalhar com os sonhos que comece com o hábito de anotá-los, mantendo uma caneta e papel perto da cama. Anote todos os fragmentos e não só os sonhos mais vívidos. Melhore suas percepções dos detalhes. Treine-se a acordar antes do alarme, continue de olhos fechados e repasse todo o sonho antes de abrir os olhos e se levantar. Anote todos os sonhos e não só os bons. Perceba suas emoções nos sonhos , observe-se. Estabeleça as diferenças e semelhanças entre ego onírico e ego acordado.
Eu poderia continuar citando mais uma série de outras observações. Mas estas já constituem um bom começo. O que importa é que estaremos dando um pouco mais de atenção ao inconsciente. O suficiente para começar a se estabelecer uma relação entre as potencialidades internas e as possibilidades externas.
Cada um de nós reage ao mundo de forma variada e única, mas para fins demonstrativos eu vou criar um sujeito imaginário para ilustrar alguns fatos.
Imagine-se agora depois de um dia comum tendo passado por todos os acontecimentos, dos mais banais aos mais significativos. Desde o ato de acordar e se preparar para sair, até conversas importantes e encontros inesperados. Então você volta para casa envolvido em seus pensamentos, para se recolher a um ambiente mais restrito, íntimo e pessoal. É literalmente uma volta para casa; você de volta à você. Neste momento, você irá se deparar com suas questões repassando todos os fatos do dia, aborrecimentos e conquistas, tentando colocá-los numa ordem mais aceitável, organizando tudo de maneira a obter um maior sentido onde se apoiar e se sentir em paz.
Estas atitudes podem parecer utópicas, uma vez que não temos muito o costume de nos ocuparmos com nossas coisas. Mas eu gostaria de continuar este exercício imaginativo, pensando em uma pessoa envolvida em seu processo de crescimento interno. Com isto estaremos excluindo uma grande parcela de pessoas que não se ocupam consigo mesmas, negando conflitos e desligando-se de compromissos de auto-conhecimento. Em vez disto, ligando-se na televisão para ocupar a mente e não ter que se incomodar com seus pensamentos inoportunos, ou pior, não ter que conversar com a pessoa ou pessoas com quem vive.
E assim, podemos levar a vida por meses e anos sem nos ocuparmos conosco. Totalmente à mercê de nosso próprio inconsciente. Quanto menos sabemos dele, maior será o risco de sermos subjugados por forças desconhecidas, nos identificando com conteúdos impróprios e estranhos à nossa personalidade. Criando uma dissociação neurótica e, uma vida artificial distanciada dos instintos normais, da natureza e da verdade.
Agora continuemos nossa imaginação. Após ter chegado em casa, e todos aqueles fatos terem transcorridos, chega o sono e você se vê irremediavelmente se escoando para um mundo totalmente desconhecido. Neste momento, mesmo que você tenha fugido de um contato imediato consigo mesmo, seus pensamentos começam a vagar dando-lhe aquela oportunidade antes não aproveitada. Você está finalmente com você mesmo, e isto pode lhe causar uma terrível insônia. Mas seguindo por outro caminho, os sons externos vão ficando distantes. Você vai perdendo a noção de seu corpo deitado na cama. Sua respiração se acalma , seu coração entra num ritmo regulador e o mundo consciente vai ficando cada vez mais longe. Você finalmente entra em um universo donde a partir daí não se pode mais imaginar.
Pouco a pouco as imagens começam a se formar. Sons e odores começam a povoar este estado dando forma a seus agregados inconscientes que lhe atingirão com tamanha força, na ordem do fantástico e incontrolável, que temos a sensação de que não produzimos aquilo. De que os sonho não dependem de nosso arbítrio, e que possuem suas próprias leis. E isto é a pura verdade! Esta nova realidade se descortina, povoada por seres humanos e sobre-humanos, onde você (o ego onírico) vai responder da forma mais variada, em cenários e situações dos mais diversos.
A nossa dificuldade na compreensão da natureza ilusória dos sonhos, se deve ao fato de igualarmos sua imaterialidade com irrealidade, em vez de reconhecermos esta imaterialidade como uma ilusão a ser penetrada.
Para Jung, nós perdemos os adornos da fantasia, que é uma qualidade característica da mentalidade primitiva. Quando nos acontece algum fenômeno impossível de ser explicado pelo senso comum, duvidamos de nossa sanidade quando não do fenômeno; enquanto o primitivo pensaria em magia, espíritos ou deuses. Todo fenômeno que se situe abaixo do limiar da consciência e reaparece ocasionalmente, nos dá a impressão de que está acontecendo algo errado.
Quando uma palavra ou imagem possui um aspecto simbólico que vai além de seu significado aparente, imediato, podemos dizer que este aspecto possui características inconscientes que jamais poderão ser de todo definidas, e muito menos explicadas. Para explorarmos um símbolo usamos padrões de pensamento que vão além da razão, assim como usamos de uma linguagem simbólica para comunicarmos idéias que não compreendemos em sua totalidade. Esta produção de símbolos pode ser observada em monumentos e expressões artísticas. Mas a sua forma mais inconsciente e espontânea são os sonhos.
Quando sonhamos, vem à tona algum valor para ser integrado à consciência. Estamos sempre à procura de novos padrões, atitudes, entendimentos e novas possibilidades restauradoras do nosso equilíbrio. E esta integração requer duas partes: a consciência e o inconsciente; isto é, o ego como centro da consciência e o seu eu interior, que é o centro de seu ser.
A este ponto central Jung deu o nome de Self, que segundo ele, é só um conceito psicológico que usamos para exprimir o icognocível que ultrapassa todos os limites de nossa compreensão. Os primórdios de nossa vida psíquica parecem surgir deste ponto, e nossas metas mais elevadas parecem dirigir-se para ele.
O estabelecimento deste eixo ego-Self só pode ser sentido, mas não definido. Ele se manifesta como uma sensação irracional de estarmos conectados a algo incompreensível. Com certeza vocês já sentiram isto em algum momento de suas vidas quando ocorre uma mudança de paradigma. É aquela sensação de você se sentir encaixado dentro do tempo e do espaço onde tudo faz sentido. Um cliente a descreveu como "estar aqui dentro", presente.
Este Self funciona como um impulso para o auto-conhecimento, recolhendo o que há de disperso e não identificado, transformando-os em uma unidade identificável e integrada pela consciência. Para compensarmos o confronto existente entre interno e externo, devemos trazer à luz da consciência o maior número possível de conteúdos inconscientes. E quanto mais significativos forem, melhor, pois isto seria uma indicação de que estaríamos nos aproximando mais do centro.
O Self apesar de ser um conceito abstrato, é observável sob a forma de símbolos espontâneos e autônomos como as mandalas, figuras sobre-humanas e imagens que fogem de nosso cotidiano. São imagens de natureza arquetípicas que aparecem nos sonhos produzindo um efeito compensador de saúde e equilíbrio, e se manifestam principalmente em momentos de grande desorientação ou reorientação psíquicas.
Podemos observar estas qualidades em fragmentos de alguns sonhos. No primeiro deles a pessoa estava correndo por ruas escuras e desertas, fugindo de algum perigo eminente que não podia identificar. O desespero era grande e ela não sabia mais o que fazer. Ainda sem rumo, ela entra em um prédio antigo com portas enormes. Lá dentro havia um salão todo iluminado e um chão de mármore com um desenho redondo que parecia uma flor. Só aí ela percebe que o perigo havia passado e que estava tudo calmo... Em um outro sonho um paciente relata que estava em uma busca desesperada por algo vital, mas que não sabia o quê. E quando já estava quase sem forças, ele se vê em uma praça redonda toda florida e lá havia um unicórnio. "Parecia o Jardim do Éden". Num outro sonho a pessoa está correndo de uma manada de bois bravos por um campo aberto onde não havia um lugar para se esconder. Quando os bois estavam quase o alcançando, ele avista uma árvore frondosa. Ele relata que como por encanto a situação muda e ele já não está correndo. Ele estava tranqüilo e despreocupado conversando com um velho camponês caminhando por entre vaquinhas deitadas no pasto. Esta auto-regulação psíquica se manifesta através de símbolos universais que representam o Self. Na maioria das vezes a simples visão destes símbolos já é suficiente para transformar a situação, ou seja, para reorganizar a confusão emocional extremada. A mandala desenhada no chão, a praça com o unicórnio, ou às vezes com um chafariz bem no seu centro, ou a árvore no pasto onde a pessoa nem tem que correr até ela para se esconder ou subir em seus galhos, são símbolos que representam uma nítida compensação das contradições e conflitos de uma situação consciente. Conforme Jung, eles esconjuram as potências anárquicas do mundo obscuro gerando uma ordem que converte o caos em cosmos.
Estas representações simbólicas ocupam um espectro extremamente vasto em termos de imagens. O inconsciente, na tentativa de nos revelar algum aspecto relevante para uma compensação psíquica, tende a nos apresentar imagens que poderiam ser classificadas dentro de determinados padrões ou níveis. O primeiro nível seria o arcaico ou arquetípico com imagens coletivas mais próximas de sua linguagem simbólica, relacionada à seres ou situações incomuns ou sobrenaturais, que seriam de difícil compreensão por não fazerem parte de nosso cotidiano. Normalmente estes sonhos representam uma situação indiretamente, por meio de metáforas que nos dificultam captar o conteúdo emocional da linguagem ilustrada. Pois como já mencionei esta percepção é uma qualidade característica da mentalidade primitiva. Para nós, esta habilidade de perceber o supra real foi transferida para o inconsciente.
Como não conseguimos captar muito desta mensagem simbólica arcaica , o inconsciente trataria de produzir um novo cenário, mais familiar, com pessoas conhecidas nos dizendo algo compreensível e de forma amigável. Para ilustrar estes dois primeiros níveis vou comentar a respeito de três sonhos de uma paciente. O primeiro ela sonhou estar em um lugar sombrio, divagando sobre seus problemas quando surge à sua frente uma figura luminosa prestes a lhe revelar alguma verdade. Ela ficou tão petrificada de medo que a visão imediatamente se desfez. No segundo sonho, ela está passeando com sua mãe por um penhasco e esta lhe dizia coisas que lhe causaram um mal estar tão grande que ela acordou. Não se lembrava de nada que lhe foi dito. No terceiro, ela se vê calmamente passeando pela praia com uma amiga de quem gosta e considera muito. E esta amiga lhe dizia coisas fantásticas, de uma forma agradável, que ao acordar se lembrava de tudo. Mais tarde, com estas informações ela consegue analisar e compreender determinadas tendências de seu psiquismo. Existem mais dois outros níveis de manifestação simbólica do inconsciente que vão além do nível sutil, onírico, e eu as citarei apenas para completar o quadro. Como vocês podem perceber o inconsciente se manifesta a partir de uma expressão simbólica coletiva, arcaica, passando para um nível pessoal. E se ainda nós não somos capazes de compreender estas mensagens, o próximo nível será a somatização onde iremos produzir sintomas em nosso corpo como uma chamada de atenção mais séria em relação ao nosso equilíbrio holístico. Se ainda insistirmos em não dar a devida atenção à estes chamados, o próximo nível seria dos fenômenos externos. Estas manifestações romperiam a barreira de nosso corpo e passaria a atuar no ambiente como se viesse de lá para cá. Do mundo para mim. No nível da somatização estaríamos desenvolvendo doenças e dores onde seria observado o aspecto psicossomático de cada patologia. Existem ainda estudos de imagens de sonhos relacionadas com determinadas doenças ou com uma precariedade de algum órgão ou parte do corpo. O último nível, dos fenômenos externos representa uma chamada de atenção mais drástica onde nos vão acontecer acidentes desde uma topada do dedinho do pé na cadeira à alguma coisa mais grave.
Como não podemos evitar estas formas indesejáveis de manifestação do inconsciente, os sonhos também podem se prestar a este papel criando, às vezes ,caminhos tortuosos e acidentais. Logo, não devemos sempre esperar que os sonhos venham a atender as nossas expectativas conscientes ou subjetivas. O inconsciente nem sempre é benevolente, tentando encontrar a melhor maneira para nos informar de um caminho livre de obstáculos. A imagem que me vem é como no filme A Guerra dos Titãs onde os deuses diante de uma maqueta com árvores, casas e homenzinhos, intercediam no destino destes, às vezes lhes colocando uma pedra no meio do caminho. Jung nos diz que o que for necessário para a restauração de seu equilíbrio, lhe será apresentado. Se você tiver que ir ao fundo do poço, o melhor que tem a fazer é tomar as precauções necessárias em vez de ser jogado de costas buraco abaixo. Ele atendeu uma cliente bastante arrogante, de nariz empinado, que vivia além de suas posses, e ela sonhou estar indo a uma festa da alta sociedade. A anfitriã a recebe com todas as reverencias lhe dizendo que seus amigos já estavam todos lá. Quando ela entra, ela está em um estábulo cheio de cavalos. Ela ficou indignada. Apesar do sentido óbvio do sonho, ela o negou por completo, recusando o absurdo evidente. Só depois de uma análise e reflexão ela admitiu determinadas atitudes grosseiras começando aí todo um processo de reorganização.
Normalmente o sonho nos diz coisas diferentes daquilo que esperamos. Aliás, se o sentido do sonho corresponder às expectativas, deveria ser motivo suficiente para desconfiança, pois o ponto de vista do inconsciente é complementar ou compensatório em relação à consciência. Existem sim sonhos paralelos que coincidem com a atitude consciente ou que venham em apoio a esta última, mas estes são muito raros.
Nem os chamados sonhos premonitórios seriam necessariamente uma forma de previsão. O que acontece é que muitas de nossas crises já possuem uma história longa à nível inconsciente, e somos nós, que caminhamos desapercebidos em direção à elas, nos aproximando dos perigos e armadilhas. Aquilo que não tomamos consciência, quase sempre é captado pelo inconsciente, que por sua vez, nos transmite de volta o que for necessário, através dos sonhos.
Não podemos ter como garantido e certo, que em momentos difíceis surgirá uma mão amiga para nos resgatar das situações conflitantes. Às vezes parece que funciona e outras não. Jung cita o oráculo de Delphos como exemplo, quando revela ao Rei Croesus que se ele atravessasse o Rio Halys ele destruiria um grande reino. Somente depois dele ter sido completamente derrotado em batalha logo após ter cruzado o rio, foi que percebeu que o reino ao qual o oráculo se referia era o dele.
Ainda assim, continua valendo a premissa de que o que for necessário para a nossa balança psíquica será promovido. Na relação ego/Self, este continuará atuando, recolhendo o que há de disperso e não reconhecido na psique, transformando-os em uma unidade identificável e integrada por aquele, que é o centro da consciência. Isto deve eliminar o enclausuramento do indivíduo em sua mesmice, ampliando o espectro da consciência através da conscientização dos paradoxos e conseqüente esgotamento das fontes de nossos conflitos. É deste diálogo com o inconsciente que se promove o que chamamos de cura.
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WILLIAMS, S. K., Jungian- Senoi Dreamwork Manual.
Berkeley: Journey Press, 1980. ![]()
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Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Realiza palestras e cursos de formação. Contato: