Algumas Considerações sobre a Histeria

Por Sérgio Pereira Alves (*):

No final do século passado, com o crescente interesse em fenômenos mediúnicos, psicólogos e pesquisadores da época foram chamados à atenção para determinados aspectos de nosso psiquismo. Numa tentativa de sintetizar uma grande quantidade de dados colhidos em sessões espiritualistas, Frederick Myers publicou em 1903 um trabalho chamado "The Human Personality and its Survival of Bodily Death". Seu livro teve um grande alcance em vários campos de conhecimento da época inclusive enfatizado por sua afinidade em publicações psicanalistas. De fato, foi ele quem introduzira os trabalhos de Freud ao público Britânico dez anos antes.

Myers defendia que a personalidade era composta por duas vertentes ativas de pensamentos e sentimentos. Aquelas que se apresentavam acima do limiar da consciência foram consideradas supraliminares e as que se mantinham submersas, abaixo da consciência eram subliminares. A evidência de uma instância subliminar levou-o a confirmação da neurose histérica que se manifestava através de idéias insistentes, pensamentos obsessivos e terrores escondidos que emergiam em casos observados de múltipla personalidade.

A emergência de idéias estranhas à consciência acabou servindo de reforço para a confirmação de uma psicologia sobre a histeria. Freud e colaboradores, na primeira década deste século, observaram que associações incoerentes surgiam no indivíduo como idéias súbitas, estresse acompanhado de uma memória caprichosa. Ainda com relação ao histérico existe uma ausência de reação aos estímulos onde não podemos afirmar se este realmente não sabe, não quer ou se não pode responder. Estas atitudes às vezes parecem ser um bloqueio totalmente involuntário que se pensou em uma outra hipótese que é a amnésia. Esta por sua vez, a partir do ponto que é observada, pode caracterizar ou ser caracterizada por sintomas de negativismo que existe em suas várias formas e graus onde o simples processo da vontade reverte-se em seu contrário.

Este mecanismo de contrastes, freqüente nos sintomas patológicos da histeria, é uma função autônoma que se contrapõe à atividade psíquica normal e está fortemente enraizado na "afetividade", manifestando-se fundamentalmente no campo das idéias e em todas as decisões que possuem uma forte tonalidade afetiva. Este mecanismo surge ainda como uma proteção contra qualquer ação precipitada. Num momento crucial, quando acontece algo inesperado e é exigido uma resposta imediata, a pessoa trava e cai num emaranhado de idéias súbitas estranhas à consciência, sendo forçada a uma avaliação dos prós e contras rechaçando desta forma a percepção clara das coisas com analogias vagas e estranhas.

As excitações afetivas correspondentes tornam-se incompreensíveis para a pessoa, uma vez que não se compreende as associações elaboradas durante este estado. Isto ocorre com todos nós quando ficamos mal humorados sem termos a consciência de uma causa plausível. As vezes damos a uma resposta simples, um tom ríspido que o outro fica sem entender o que está acontecendo. No histérico isto é um fato comum que pode ser observado tanto nos conhecidos "exageros", nas reações, como em suas atitudes de gélida indiferença. Mas independente das associações geradoras destes comportamentos amplificados e contraditórios, com uma análise profunda, podemos encontrar um fator comum que liga todas as séries de associação que ocorrem nestas diferentes respostas que eclodem na consciência por causa de uma despotencialização da mesma.

Numa situação estressante podemos ver nitidamente como as nossas ações e pensamentos surgem como meros sintomas de nossa afetividade. Nas situações mais simples podem surgir hesitações ou outros distúrbios que somente podem ser explicados pelo fato de que algum complexo está sendo acionado. Os complexos seriam aqueles segredos íntimos cuidadosamente guardados ou escondidos por algum mecanismo repressor os quais a pessoa não quer ou não pode revelar. E quando a repressão é muito forte, é provocada uma amnésia histérica que impede de se perceber o surgimento de alguma idéia significativa mas estranha à consciência, que simplesmente nos escapa.

Isto provoca um embotamento na percepção da pessoa seguido de um empobrecimento emocional de todos os outros estímulos que não estão relacionados com o complexo. Assim as coisas mais sem importância passam a ter um caráter gigantesco e monstruoso. E tudo isto ainda é assombrado por um comportamento histérico onde o menor comentário ou a mais leve observação que vá de encontro do complexo atuante provoca um profundo sofrimento, um desespero sem fim podendo ter como resultante, uma cólera desproporcional.

O pensamento e a ação ficam atados exclusivamente a esta forma específica e tudo mais é absolutamente desprezado, aumentando a sensibilidade da pessoa a um grau tão elevado que o mais comum de se escutar nos relatos de uma crise é a sensação de que se vai morrer. É acionado uma reação em cadeia onde a boca seca, as pernas perdem a força ou ficam paralisadas, vai-se perdendo gradativamente a audição, metade ou todo o campo visual pode ser tomado por uma mancha escura, o couro cabeludo fica gelado e sente-se a cabeça toda arrepiada de dentro para fora. Pode ocorrer alucinações auditivas e visuais, um calafrio na espinha e por todo o corpo, as mãos suam gelado, taquicardia. Em resumo; pânico total. Uma crise aguda de ansiedade culminando em desmaio e/ou convulsão.

O estado psicológico que se segue é de extrema fragilidade, vulnerabilidade, vergonha e insegurança. Podendo deflagrar uma patologia histérica apoiada no medo por tudo ou pelas coisas mais insólitas. E aí germina a semente para novas crises futuras. Uma situação insuportável onde as suas vítimas deslocam os seus interesses para fantasmas e circunstâncias das mais extravagantes, surgindo manias, hobbies e comportamentos excêntricos.

Alguns escondem a sua dor em uma alegria forçada e convulsiva que chegam a incomodar as pessoas por causa de sua superficialidade ou ausência de afeto. Pessoas que contam tragédias pessoais dando risadas. Mulheres com uma alegria agressiva. Homens submersos em bebidas alcóolicas e outros comportamentos de fuga. Mas, em qualquer dos usos, cada uma delas, contínua sofrendo pois pelo menos inconscientemente ela permanece insegura e sabe que quando menos esperar poderá surgir uma fala, ou um gesto que vai futucar aquela ferida profunda e reanimar o complexo que reside no fundo de seu ser.

Pelo fato dos complexos serem autônomos, ou exatamente como prova disto, os histéricos conseguem falar deles com uma certa disparidade entre o conteúdo das idéias envolventes e o afeto por elas produzido, que foi chamado de "belle indifférence". Mas esta atitude não perdura pois logo ela é sobrepujada por uma descarga incontrolável de afeto. Do riso irritante ao choro convulsivo em pouco tempo. Vários médicos já puderam presenciar a indiferença e superficialidade desconcertante e aparentemente intencionais de seus pacientes, para horas mais tarde serem chamados à enfermaria porque o paciente com quem tinham conversado, tinha tido um surto, revelando assim que ele havia sido profundamente afetado pelo conteúdo da conversa.

De fato, todos nós possuímos mecanismos que atuam no sentido de reprimir e esconder o que mais nos aflige. O desencadeamento de idéias estranhas parece que se deve ao fato da ocorrência de um estreitamento da consciência limitando a clareza ou um bom senso em relação a uma idéia congruente, com uma ampliação desproporcional de uma ausência de distinção analógica de pensamentos obscuros que passam a comandar o show. Daí podem ser produzidos distúrbios momentâneos criando um entorpecimento, também momentâneo, da razão; privando o pensamento de seu curso normal.

Portanto "as afirmações delirantes e as sensações dos sintomas nos histéricos em um momento de crise funcionam como deslocamentos, i.e., os afetos que as acompanham não pertencem a elas e sim a um complexo reprimido encoberto justamente por estas manobras ". (Jung,III,¶ 168). Existe um comprometimento da lucidez da consciência no momento da crise onde o pensamento do doente elabora os seus entendimentos em uma direção já predeterminada por seu estado afetivo. Normalmente a fonte da ansiedade que atormenta a pessoa tem origem em algum medo preexistente ao fato relacionado cujo afeto, imposto intencionalmente a ele, possui um tonus inteiramente desproporcional.

Podemos agora dizer que a história do desenvolvimento da histeria só difere em pequenos detalhes da de uma pessoa normal. E as causas que levam a um ataque histérico são determinadas por elementos dinâmicos do momento atual e cujo exame do significado pode levar à sua compreensão.

Bibliografia

JUNG,C.G., Psicogênese das Doenças Mentais. O.C. III. Petrópolis.:Vozes. 1986.

MISLOVE,J., The Roots of Consciousness. New York.:Random House-Bookworks. 1975.top2.gif (813 bytes)


(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)