Artes Divinatórias

Por Sérgio Pereira Alves &

Renata Andrade de Araújo (*):

Tratar de um assunto tão delicado como este, é preciso deixar nossas mentes abertas, ou ainda deixar certos preconceitos de lado.

Pelo fato de eu ser um Psicólogo, eu já possuo toda uma tendência para tratar deste assunto numa perspectiva Junguiana de interpretação de símbolos.

Então para começar eu creio que qualquer que seja a arte divinatória que vamos consultar, eu sempre vou entendê-las como uma forma simples de entrar em contato consigo mesmo; de se ter acesso a uma estranha realidade onde vivem esses seres imaginários que habitam o nosso inconsciente.

Como definição:

Divinação, ou adivinhação é o ato ou esforço de predizer coisas distantes no tempo e no espaço, especialmente o resultado incerto das atividades humanas. A divinação busca determinar o significado ou as causas ocultas dos acontecimentos, predizendo às vezes o futuro, por meio de práticas variadas.

A primeira das artes divinatórias foi a interpretação dos sonhos. Existem vários sonhos, na história que foram usados como previsão para o futuro. Sob a ótica da parapsicologia estes são sonhos premonitórios, isto é, sonhos através dos quais se manifesta a faculdade paranormal de Premonição. Todos nós já tivemos sonhos com pessoas que não vemos há tempos e, no dia seguinte, recebemos uma visita ou uma carta dessa pessoa.

Uma explicação bastante razoável para isto, é que no sono (assim como na meditação ou no relaxamento profundo) ficamos mais receptivos psiquicamente. Assim, podemos captar por Telepatia a mensagem de uma pessoa que está pensando em nós com maior intensidade.

Existem vários relatos antigos que afirmam que os sonhos são mensagens dos deuses, mas no início do século passado já prevalecia a tendência de se anular a crença no transcendente colocando o sonho na esfera das ciências naturais.

Esta tentativa também ocorreu com as artes divinatórias mais conhecidas. Mas por mais que se tentou, tanto os sonhos como em todas as outras artes, elas ainda continuaram envoltas numa aura de mistério, instigando o homem a querer captar algum segredo contido nessas imagens simbólicas com alguma possibilidade de se prever o futuro.

Ao longo do tempo, na busca de respostas para os problemas cotidianos e as inquietações da alma, o homem descobriu antigos oráculos, para lhe atender em sua busca. Tais como a Astrologia, Baralho Cigano, Bola de Cristal, Cafeomancia, Numerologia, e Runas e similares.

Consultantes destas artes já foram perseguidos, pelo perigo que representam, por terem acesso à informações do que o futuro pode nos oferecer. Além de oráculos, eles podem ser considerados bruxos, wiccas e pagãos aumentando ainda mais a descrença e o medo de que estas pessoas sejam perigosas e mal intencionadas. Mas isso pouco adiantou, pois sempre irão existir oráculos e as artes divinatórias.

Mas como isso acontece? Como se interpreta a linguagem desses meios divinatórios?

A linguagem simbólica, empregada nesses comunicados ou previsões como o I Ching e as Runas, que são oráculos mais antigos, se assemelha à linguagem mitológica cheia de metáforas e alegorias. Nos mitos gregos cada acontecimento é um evento grandioso. Cada rio é um deus, cada regato uma ninfa, e quando eles correm na mesma direção é porque eles se amam profundamente.

A título de comparação, os jornais de hoje fariam um comentário sobre um afogamento da seguinte forma: "Triste acidente ocorreu neste fim de semana, quando um jovem tragicamente foi dragado pelas águas...

"Os Gregos talvez diriam assim: "Ele era tão belo que as ninfas, apaixonadas, o raptaram e o levaram para o seio das águas."

Esta forma cheia de imagens usadas pelos Gregos pode também, nos parecer uma história grotesca quando não entendemos o seu significado, mas assim que a decodificamos, percebemos o seu sentido, e ainda, que a história relatada se refere a um processo interno.

Como exemplo, podemos citar Júpiter, que desposa Métis e logo em seguida a devora, para mais tarde nascer de seu cérebro uma filha chamada Mnemósina. Horrível, não?

Agora quando sabemos que Métis significa Reflexão e Mnemósina, Memória, então podemos entender que Júpiter se une e digere a reflexão para daí nascer a memória. E ainda, da união de Mnemósina (a memória) com o sopro divino nascem as Musas (a inspiração).

Nos sonhos e devaneios de nossos pacientes podemos encontrar também os mais belos mitos. Pessoas simples nos contam, com uma riqueza de imagens, os seus próprios dramas que se expressam através de um pensamento simbólico que precede a linguagem e a razão discursiva. Por esta razão que podemos dizer que o inconsciente é poético.

A leitura destes símbolos não pode ser feita no sentido de uma redução, pois como todos sabemos um símbolo possui inúmeros significados enquanto que um signo, um sinal, possui apenas um. Esta redução resultaria em trazer para o concreto uma significação completamente alheia à nossa realidade externa. Trazer para o concreto uma imagem que possui inúmeros planos de referência. Pois interno e externo ou inconsciente e consciência são dois mundos distintos, com referenciais completamente diferentes. Um outro exemplo que poderia muito bem ilustrar este processo, é a história de Nero que depois de botar fogo em Roma e matar centenas de cristãos, se senta enfadado em seu trono e cai em um drama existencial tipo "quem sou eu?" ou "de onde vim?" Em sua estreiteza mental ou imaturidade psíquica, ele escuta o seu pensamento e conclui a solução por uma dedução lógica. Manda buscar a sua mãe e faz com que lhe abram a barriga e retirem todos os seus órgãos para que ele pudesse ver de onde ele havia vindo.

Um outro exemplo, o Rei Creso pretendia invadir a Pérsia, mas há anos que tinha algumas dúvidas a este respeito. Então ele decide ir ao oráculo de Delfos, consagrado a Apolo. Lá , Creso recebeu a sua resposta: “Ao cruzares o rio, destruirás um grande império.” Satisfeito com a resposta, ele retorna à sua terra, arma seu exército, e invade a Pérsia e… é derrotado! Teria errado o oráculo?

Repare bem que oráculo não especificou qual império seria destruído. Foi o próprio Rei Creso quem projetou na resposta seus desejos, sem pensar que o império destruído poderia ser o seu.

O fato é que, todas as respostas que recebemos dos Oráculos, não devem ser tratadas levianamente. Mas tenha a certeza, que os Oráculos, podem muito bem servir como ampliadores de nossa consciência, como uma luz sobre nossa senda pessoal, como facilitadores de nosso processo de individuação, que nos permitem ir além da razão.

Uma coisa que é preciso ressaltar é a sua postura em uma consulta, onde o mais importante é sua seriedade e a consciência de que os oráculos são interlocutores de nosso próprio Self, de nosso Eu Interior. Eles com suas habilidades mediúnicas podem fazer uma leitura bastante apurada, do que está acontecendo em sua vida, ligando os acontecimentos externos e seu processo interno de crescimento.

Jung criou um termo que pode muito bem nos ajudar a compreender este processo da relação entre o nosso mundo interno e nossa realidade externa..

O termo é a Sincronicidade. “uma coincidência bastante significativa onde se percebe uma estreita relação entre o seu mundo interior e sua realidade externa, mas que não são ligadas por uma relação de causa e efeito, i.e., você não pode  ligar estes dois fatos com a palavra ‘porque’”. A esta sensação de ‘ter a ver’, i.e., a este sentimento de que o que está acontecendo comigo tem uma relação estreita com as minhas percepções, sensações, sentimentos, internos; mas que não é uma relação de causa e efeito. Isto é, um não é causa do outro, mas de alguma forma você percebe que estão ligados. O fato de não conseguirmos explicar tal fenômeno é por causa de nosso pensamento cartesiano, dialético, dentro de uma cultura judaico-cristã. Eliade diz que seria uma aberração tratarmos os símbolos desta forma redutiva.

Por isto discordamos do pensamento psicanalítico quando diz que o desejo de possuir a própria mãe não quer dizer nada mais do que isto. Se levarmos em conta que se trata da imagem da mãe, este desejo pode sim querer dizer muito mais coisas como o desejo de reintegrar a beatitude da matéria ainda não formada, com todos os seus desdobramentos possíveis – cosmológico, antropológico, psicológico, metafísico, etc. Poderíamos falar ainda da atração da matéria pelo espírito, ou aquele sentimento de nostalgia pela unidade primordial, a nostalgia do paraíso, ou ainda o desejo de abolir os opostos, as polaridades. Então, mesmo quando traduzimos uma realidade psíquica em termos sexuais, não quer dizer que estamos humilhando ou emporcalhando a nossa experiência enchendo o indivíduo de preconceitos e culpas; pois exceto para nós homens modernos, a sexualidade sempre foi algo de expressão divina.

É claro que não podemos ignorar que em certos casos a psique fixa uma imagem sobre um único plano de referência, o plano concreto, ou seja, faz uma redução, mas isto já demonstra um desequilíbrio psíquico. Nestes casos a imagem da mãe nada mais é do que um desejo incestuoso da própria mãe, mas nós psicólogos temos que concordar que nesta interpretação há uma manifestação patológica de uma crise psíquica e que obviamente não se encaixa na experiência de TODOS os seres humanos.

O mais importante de tudo é que devemos estar em sintonia com o nosso processo interno, para que isto ocorra. Mas, de novo, vale a pena ressaltar, que a grande maioria dos consultantes sérios e comprometidos com sua arte, são extremamente intuitivos e grandes leitores desses símbolos a serem interpretados. Cada um dentro de sua própria tradição, possui uma forma única para compreender o que se passa, e clarear o seu caminho do auto- conhecimento.

Por serem símbolos universais, primeiro devemos ter em conta de que eles possuem uma infinidade de possíveis interpretações. Caberá sempre a você se conectar consigo mesmo para avaliar qual será a interpretação mais adequada para o seu momento de vida.

Este é o valor de um símbolo. Os símbolos possuem inúmeros significados que se opõe a um sinal, que possui um único significado.

Na busca de respostas para problemas cotidianos, é muito comum procurar de algum tipo de oráculo. Mas para que as respostas encontradas sejam satisfatórias, certos procedimentos devem ser atendidos.

O seu nível de consciência deve estar aberto para que você possa receber sem impedimentos o maior número de informação possível. Isso significa estar aberto, sem preconceitos, sem idéias pré-concebidas e sem que competir ou desmascarar o Oráculo.

Se você se dispõe a ir numa consulta, não faz nenhum sentido se fechar, ou desconfiar das respostas que você está recebendo. Mas não significa também que tudo que você vai escutar vai lhe satisfazer por inteiro.

Lembre-se que é você tem a última palavra; é você quem decide o que você vai aproveitar daquela experiência. Uma coisa é certa, que você vai se encontrar com sua alma, com seu Eu Interior, com a sua essência. Isso também só é possível quando você tem o privilégio de se encontrar com um verdadeiro mestre das artes adinhatórias. O consultante verdadeiro lhe põe em contato com sua essência divina, o falso, o charlatão com o seu Ego, com sua vaidade, lhe respondendo simplesmente o que você está querendo escutar.

Em outras palavras, seguindo as leis Universais de Causa e Efeito o que eu penso eu atraio, pense bem no que você está desejando, pois você corre um grande risco de encontrar. Nós somos filhos de Gaia. Quando nós aprendermos a nos amar, a nos perdoar, só assim entraremos em contato com a Lei Universal.

É um caminho difícil para nós que estamos aqui mas não impossível. E os Oráculos nos ajudam a voltarmos para nós. Se estamos em contato com nossa alma, mesmo sendo difícil, nós recebemos várias dádivas.

 Desejos uma boa sorte para todos!

Namaste!

Sérgio Pereira Alves.

Renata Andrade de Araújo


(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação.

Renata Andrade de Araújo é Taróloga e Reikiana

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