BIOFEEDBACK – PESQUISA E TERAPIA

Por Sérgio Pereira Alves (*):

A ciência ocidental tem tradicionalmente pressuposto que as funções voluntárias do corpo são conscientemente controladas através do córtex cerebral e do sistema nervoso cranioespinal, e que as funções involuntárias são automaticamente e inconscientemente controladas através do subcortex e do sistema nervoso autônomo, e ainda que este sistema nervoso autônomo não podia ser voluntariamente controlado a um grau significativo. Entretanto, pesquisas têm demonstrado que não é exatamente assim. Mudanças voluntárias são possíveis normalmente em funções fisiológicas involuntárias e podem ser facilitadas pelo biofeedback.

Biofeedback significa dar à pessoa, informações contínuas e imediatas sobre suas próprias condições ou processos biológicos, tais como comportamento do coração, temperatura da pele, ondas cerebrais, pressão sangüínea ou tensão muscular. A informação é retroalimentada por uma agulha em um medidor, por uma luz ou um som, i.e., dá à pessoa informações externas imediatas sobre mudanças na função particular que ela está tentando controlar.

Talvez seja possível trazer sob algum grau de controle voluntário qualquer processo fisiológico que possa ser continuamente monitorado, amplificado e exposto. Isto está implícito no princípio psicofisiológico que afirma que "toda mudança no estado fisiológico é acompanhada por uma mudança apropriada no estado mental-emocional, consciente ou inconsciente; e inversamente, toda mudança no estado mental-emocional, consciente ou inconscientemente, é acompanhada por uma mudança apropriada no estado fisiológico". (Green, E, Green A., 1970). De um ponto teórico, este princípio acoplado com a volição, tornas-se possível uma auto-regulação psicossomática. Mas, como funciona o biofeedback? Como pode o conhecimento sobre o que está acontecendo dentro da pele, torna possível a auto-regulação de processos biológicos ‘involuntários’?

As ferramentas e técnicas do biofeedback tornam possíveis mudanças voluntárias nas atividades elétricas do cérebro registradas como ondas num papel gráfico (E.E.G.) que são freqüentemente correlacionadas com mudanças no estado de consciência. Estas ondas representam ritmos cerebrais, e a presença destes é avisada ao sujeito por meio de luz ou som. No E.E.G. feedback, os ritmos cerebrais são monitorados e retroalimentados através de eletrodos localizados no escalpo.

Em geral tem sido observado que o ritmo beta (freqüência de 13 a 26 ciclos por segundo ou hertz) na região occipital da cabeça, é normalmente predominante quando a atenção está ativamente focalizada no mundo exterior, ou na resolução organizada de problemas analíticos, ou ainda quando é associado com o pensamento ativo, e quando a mente está ansiosa ou tensa.

O ritmo alpha ( 8 a 13 c/s)é normalmente associado com um estado relaxado, internamente focalizado. A mente está alerta mas em repouso, não estando focalizada nos processos externos, e nem ajustada no pensamento organizado ou em resoluções de problemas. É sabido que 90% das pessoas produz ondas alpha quando os seus olhos estão fechados, mas em situação de treinamento em biofeedback, é exigido delas gerar ou criar um aumento na percentagem de alpha enquanto os seus olhos estão abertos.

O ritmo tetha (4 a 8 c/s) é freqüentemente associado com o estado sonolento ou quase inconsciente, e aparece na maioria das pessoas que se impelem em direção ao sono, e pode ser acompanhado por imagens hipnagógicas ou parecidas com o sonho.

A Quarta faixa de freqüência, o ritmo delta (½ a 4 c/s) é primariamente associada com o sono profundo, uma vez que não trazemos nenhuma recordação desta fase.

Em um sentido estrito, não existe tal coisa como treinamento em controle consciente de ondas cerebrais. Ritmos cerebrais não são reconhecidos como tendo qualquer representação sensorial que pudessem ser detectados pelo indivíduo. Treinamento tetha, treinamento alpha são apenas termos convenientes. O que é detectado e então auto-deduzido são certos sentimentos subjetivos, focos de atenção, e processos de pensamento que são associados com os vários ritmos cerebrais. Isto torna possível a exploração e estudo de estados de consciência em uma nova perspectiva, usando métodos da psicologia experimental, eletrofisiologia e tecnologia de computador.

Principais faixas de freqüência no registro Eletroencéfalográfico ( e.e.g.)

Normalmente

Inconsciente

Normalmente

Consciente

Delta

Theta

Alpha

Beta

1                              4                                 8                              13                      26

HERTZ (ciclos por segundo)

Muitos dos experimentos feitos nas décadas de 60 e 70 pela Fundação Menninger têm indicado a existência de uma relação entre ritmos Theta ( um estado subjetivo o qual foi denominado ‘devaneio’) e um conjunto de imagens hipnagógicas, i.e., imagens que parecem florir, dentro da mente, de fontes inconscientes.

Por volta de 1910, um sistema de treinamento mente-corpo, eventualmente chamado Treinamento Autógeno – treinamento auto-gerado ou auto-motivado – começou a ser desenvolvido por Dr. Johannes Schultz na Alemanha. Ocorreu a Schultz que talvez a hipnose fosse uma ferramenta errônea porque o paciente sempre inconscientemente resistia ao doutor. Se o paciente fosse capaz de dirigir por si próprio os procedimentos usados, com o doutor agindo como seu professor, então a técnica de controle viria ao domínio da auto regulação e talvez fosse mais eficiente. Schultz incluiu em seu sistema de treinamento, algumas disciplinas psicológicas, que ele chamou de "exercícios meditativos". Estes exercícios levavam gradualmente a um tipo de auto-conhecimento fisiológico e psicológico.

A partir do interesse de pesquisadores americanos na consciência e volição, que Alice Green do Departamento de Pesquisas da Fundação Menninger decidiu, em 1965, testar o treinamento autógeno e descobrir se é verdadeiro ou não se as pessoas que praticavam os exercícios podiam realmente desenvolver alguns controles fisiológicos que Schultz havia falado. No programa de pesquisas, as pessoas aplicava o método por somente duas semanas, e ao começo e final de suas experiências de treinamento media-se a maioria das variáveis fisiológicas que eram fáceis de obter, tais como: ondas cerebrais, batidas cardíacas, respiração, potencial da pele, resistência da pele, circulação sangüínea nos dedos e temperatura de ambas as mãos. Alguns falharam em adquirir o controle de temperatura, mas alguns foram tão bem sucedidos que se decidiu continuar estudando o treinamento autógeno. Era claramente uma técnica de treinamento na qual ‘volição’ entrava no domínio psicossomático, então era logicamente necessário formar uma hipótese da existência de uma saúde psicossomática. As pesquisas e o treinamento autógeno indicavam que processos psicofisiológicos definitivamente podiam se auto regulados, e aceitar a existência da doença psicossomática sem postulas o seu oposto, ou seja, a saúde psicossomática, seria um absurdo. Se podemos nos tornar doentes, então devemos ser capazes de nos tornar saudáveis. Desde que os médicos estão dizendo que cerca de 80% das indisposições são de origem psicossomática , ou pelo menos tem um componente psicossomático, parece razoável presumir que cerca de 80% de nossas inabilidades podem ser curadas, ou melhoradas com o uso de programas de treinamento especial para a saúde psicossomática.

Gardner Murphy estava muito interessado nestas implicações da pesquisa, e então sugeriu à fundação que se incluísse biofeedback na metodologia de pesquisa. Ele estava interessado desde de 1952 na possibilidade de usar instrumentação eletrofisiológica para medir e apresentar à pessoa alguns de seus próprios processos fisiológicos normalmente inconscientes. Ele sabia por exemplo que problemas de tensão muscular em freqüentemente muito difíceis de manipular , e quando o doutor diz "seu problema é que você está muito tenso" , ele não dá muitas informações novas e não ajuda em nada. Geralmente um pronunciamento médico é seguido por uma prescrição, mas o que Gardner sugeria era que se a pessoa pudesse ‘ver’ a sua tensão, pudesse olhar um medidor e observar suas flutuações. Assim talvez ele pudesse aprender a manipular o problema psicológico subjacente. Ele poderia praticar a ‘abaixar as medidas’ no medidor, e o comportamento deste lhe diria imediatamente se estava sendo bem sucedido. Na essência, isto é uma aplicação do princípio de condução do feedback, o princípio servomecânico no qual máquinas automáticas são controladas. Uma fornalha e seu termostato, por exemplo, formam um sistema fechado (auto contido) de feedback. Em analogia, o humano que ajustar o termostato estaria representando a volição entrando no sistema a partir de uma fonte energética fora do circuito fechado.

A idéia de Murphy foi útil, e assim, combinada com o Treinamento Autógeno, e em 1967, foi desenvolvido um sistema de auto regulação psicossomática que foi chamado "Treinamento Biofeedback Autógeno". Aprender a manipular processos fisiológicos enquanto vemos o medidor ( ou escutamos, quando há uma produção de som) é bem parecido em aprender a jogar em uma máquina eletrônica de Pinball, com os olhos abertos. Se você tivesse que aprender com uma venda nos olhos seria mais difícil, mas se você usar os seus olhos ( empregando um feedback visual) , seria fácil.

Das várias experiências de pesquisa da Fundação Menninger com o Treinamento Autógeno, biofeedback, e com pessoas altamente treinadas, tais como Swami Rama, e depois com Jack Schwars, começamos a acreditar, ou pelo menos formar uma hipótese que "qualquer processo fisiológico pode ser detectado em algum grau". Pressão sangüínea, corrente sangüínea, batida cardíaca, corrente linfática, tensão muscular, ondas cerebrais, todos estes já foram auto regulados através de treinamento em algum laboratório. Onde está o limite desta capacidade para a auto regulação psicossomática? Ninguém sabe, mas pesquisas têm demonstrado que os limites desta capacidade se encontram muito além do que se suspeitava.

Será útil chamar a atenção para as principais áreas do cérebro, e discutir suas relações com o processo o qual chamamos ‘controle voluntário dos estados internos’. (diagrama abaixo). O item significativo no diagrama é que está dividido verticalmente em domínios consciente e inconsciente, à direita e esquerda respectivamente. O lado consciente contém o córtex cerebral, que já foi denominado de ‘tela da consciência’, e o sistema nervoso cranio-espinal ( grosseiramente, o sistema muscular voluntário). O lado inconsciente inclui o cérebro subcortical, as ‘velhas’ estruturas mais baixas do cérebro que o homem compartilha com a maioria dos animais, e o sistema nervoso autônomo – o sistema nervoso involuntário – que se situa fora do cérebro e sua base, e que controla, entre outras coisas, a pele, os órgãos internos e glândulas, e o sistema vascular do corpo. O paleocortex, o cérebro antigo, inclui uma seção chamada sistema límbico ao qual foi dado um nome de grande significado particular para o entendimento da auto regulação psicossomática, chamada "cérebro visceral". Está bem claro que a partir das pesquisas, a estimulação elétrica do cérebro visceral e das estruturas neurais citadas, através de eletrodos implantados, causa mudanças emocionais nos seres humanos. Inversamente, é bem sabido que mudanças de percepção e emocionais, são acompanhadas por mudanças neurais, ou respostas no sistema límbico do cérebro. Entretanto a maioria destes trabalhos eram feitos com animais.

Voltando ao diagrama, a linha tracejada em um momento específico da divisão entre as funções conscientes e inconscientes no sistema nervoso. Devemos visualizar a linha tracejada como continuamente ondulando entre as várias estruturas cerebrais. Está claro que quando aprendemos a dirigir um carro, todo movimento tem de ser primeiramente trabalhado no domínio consciente. Mas depois de termos aprendido a dirigir suficientemente bem, é possível pensarmos em várias outras coisas, e dirigir pela cidade sem estarmos atentos para parar nos sinais.

Em outras palavras, a linha tracejada se moveu da esquerda para a direita e se estendeu por um período de tempo sobre as estruturas neurológicas do neocortex e do sistemas nervoso cranio-espinal. Por outro lado, quando se aprende através de treinamento biofeedback a controlar a corrente sangüínea das mãos obviamente estendemos um controle consciente por um período de tempo sobre uma área que se encontra no centro esquerdo do diagrama. Isto é, Algumas das estruturas subcorticais no cérebro e alguns dos circuitos neurais do sistema nervoso autônomo têm se submetido a um controle consciente. É interessante que quando pacientes usando treinamento autógeno relatavam que eles não conseguiam adquirir controle sobre algum processo fisiológico, Murphy dizia que eles não havia feito ‘contato mental’ com aquela parte do corpo. Em outras palavras, novamente, eles não haviam estendido a linha tracejada do diagrama, suficientemente longe para a esquerda no caminho neural específico.

Diagrama Psicofisiológico relatando o domínio psicológico

consciente-inconsciente para as várias seções do domínio fisiológico voluntário-involuntário. A linha cheia vertical separa os sistemas nervoso central e periférico dentro das sub-regiões corticais. A linha tracejada ( visualizada em movimento ondulatório contínuo) separa as áreas consciente e inconsciente

Ao se aprender o controle voluntário dos processo normalmente inconscientes, não nos tornamos diretamente cônscios dos caminhos neurais e fibras musculares envolvidas. Não mais do que nos tornamos cônscios de quais nervos cerebrais e subcerebrais estão envolvidos ao se acertar uma bola de golfe. Mas como no caso da bola de golfe, quando obtermos feedback objetivo externo, podemos aprender a modificar o arranjo interno, assim como efetuar mudanças na direção desejada. Isto significa que tudo que aprendemos, sem exceções, é aprendido com feedback de algum tipo, quer isto envolva o sistema cortico-estriado ou o sistema cortico- subcortico autônomo..

A pesquisa em feedback acaba por se transformar em um recurso fantástico para aumentar a nossa compreensão sobre nós mesmos através de um compreensão de processos internos. Processos tais como; sensações ( sensações do corpo, assim com emoções) , pensamentos, imagens e intuições. Isto é significativo para a saúde fisiológica e psicológica, para a medicina e psiquiatria.

Muita pesquisa resta ser feita, pois ainda existem dúvidas do que significa este prolongamento da consciência – da auto consciência alerta e controle consciente – dentro de regiões previamente inconscientes e involuntárias. Mas aos poucos está se tornando mais compreensível e aproveitável, o que era previamente obscuro e inoperável. O dia pode estar se aproximando quando haverá um corpo de conhecimento científico sobre o mundo dentro do ser humano, como existe um sobre um mundo em volta dele.top2.gif (813 bytes)


(*) Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte. Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas.   Realiza palestras e cursos de formação. Contato:target.gif (1770 bytes)