bordados
Sonhei que estava frente ao computador, escrevendo uma carta ao professor B. e quando acabei, ao me levantar pude observar que nas barras da minha calça havia uns desenhos infantis feitos à caneta. E como ninguém poderia ter entrado debaixo da mesinha do computador, fiquei logo imaginando que aquilo era fruto de algum espírito brincalhão. Fiquei assustada e fui mostrar para minhas irmãs. Agora, meu sonho parecia que o local era a casa dos meus pais.(Digo, porque até o momento do computador era em minha casa hoje.)
Minhas irmãs ficaram assustadas também e andando pela casa, vi o meu pai sentado numa cadeira espreguiçadeira, como era de costume ele assistir a TV. lembrando que meu pai já morreu a algum tempo.Mas isso não me incomodou, era como se fosse natural a sua presença.
Tirei as calças desenhadas e fui ao encontro de minha mãe no quintal, tinha em mente que deveria procurar um defumador de ambientes, algo para melhorar a energia do local. Entretanto minha mãe se mantinha calma sorrindo para mim.
Me debrucei numa mureta ao lado de minha irmã, que olhava para mim também de forma tranqüila.Perguntei se ela havia prestado atenção no desenho e se sabia o que era, de repente poderia ser alguma mensagem.
Ela sorriu, olhou para mim e disse que sabia o que era, e me perguntou se eu não tinha visto.
Fiquei curiosa e fui a um quartinho no fundos, que sempre foi um depósito de coisas velhas, mas que hoje está vazio, e sonhei como está hoje. Quando entrei escutei a vozinha de C. me chamando e pedindo "deinha" (é a forma como ela me pede mamadeira). Ela dizia, -Deinha mamãe, deinha! e eu muito assutada, pois afinal não havia ninguém lá, disse, com voz suave, pois não queria ser desagradável, e nem demonstrar medo: - Eu sou sua mãe? e ela responde, sorrindo: -uai, mamãe, você é minha mãe. Eu fiquei assustada e disse que era para ela esperar que eu iria voltar. Passei a mão na calça e olhei bem. Agora, o desenho já não era à caneta e sim bordado com as lãs coloridas de minha mãe.
O desenho era dois bonecos 'tipo palito" com uma bola ao meio, como se brincassem de bola.
Saí do quartinho, com as calças bordadas nas mãos,e neste instante pude perceber que a minha filha C. havia morrido e todos já tinham percebido, menos eu. Vou de encontro a minha mãe e irmã e elas confirmam com o olhar,vou saindo chorando muito, sentia o meu corpo tremer de tanto chorar. Vou subindo uma escada(que não existe), e de repente vejo minha filha saindo de dentro deste quarto, vestida com um vestidinho muito colorido e os cabelos loirinhos,ela saí com um bichinho de pelúcia nas mãos, sorrindo e dando tchau.
Só que quem distanciava era eu, olhando para ela, chorando, mas subindo esta escada.
Acordei assustada, fui logo ver se ela estava bem, e quando voltei comecei a chorar. O pior que eu tinha a sensação que estava perdendo não C. e sim, minha mãe. Fiquei muito angustiada e até o momento quando estou escrevendo este sonho sinto-me emocionada, com um certo medo.
* as marcas em cor são minhas
Me chama muito a atenção o fato de existirem somente figuras femininas nos sonho. A única figura masculina é o Prof. B. com que você está tentando entrar em contato. Me parece que seu sonho está lhe dizendo de uma condição interna, de uma transformação profunda a nível estrutural. Conscientemente ou não você deve estar passando por questionamento sobre sua identidade e papel do que você representa para si própria como também para os outros. Apesar de assustador e as vezes doloroso, eu particularmente acho fascinante a capacidade do inconsciente de lhe apresentar os acontecimentos de forma tão bela e marcante.
Com relação à figura masculina em seu sonho, Jung nos fala de uma representação denominada animus que caracteriza o seu inconsciente como um todo. Quando falamos de seu crescimento interno e tendo em vista a disposição em pares de oposto (consciência/inconsciente, feminino/masculino,etc) da qual toda a nossa psique está formada, você está entrando em contato com este conteúdo por alguma razão. Um detalhe que você não colocou foi o assunto da carta (pedir esclarecimentos, falar da conclusão de algum trabalho) mas seja qual for este, você está sendo avisada para entrar em contato com esta instância (ou ainda, que este contato está ocorrendo). Isto quer dizer que, em sua vida acordada, você tem questionado determinados papeis e identificações antigas que precisam ou que estão se transformando.
Os desenhos infantis podem representar determinadas características da infância que ainda estão presas à você. Linda a forma que o inconsciente encontrou para lhe falar dos complexos. Este é o espírito brincalhão que você pressentiu. Mas olha, eles estão na "barra" da calça, na beirada, quase saindo. Você conhece a expressão a "barra da saia da mãe"? Provavelmente isto também está lhe dizendo com você particularmente está tratando este complexo. Com todo carinho e atenção cuidando para que ele não se vá. A antiga casa de seus pais me parece que simplesmente confirma a sua identificação com este estágio da infância. A presença de seu pai é a sua segurança que lhe dá forças para enfrentar a situação.
No momento em que você tirou as calças desenhadas ( se desfez do complexo) você pode ter ficado insegura e procurou conforto e aprovação na figura de sua mãe que está "lá fora no quintal". É como se você estivesse se desligando do tal complexo de forma bem lenta e segura, com o cuidado correto que se deve ter. Antes a coisa estava em sua calça e agora estava lá fora. A resposta de sua mãe se fosse verbalizada talvez seria: "Oh minha filha, está tudo bem. É isso mesmo. Só você que ainda não viu. Você cresceu." A sua irmão, uma outra característica feminina sua, também confirmou o ocorrido.
Perplexa e com medo, que é muito natural pois todos nós temos muito receio de abrirmos mão de nossas identificações, você volta lá no fundinho do inconsciente, lá no "quartinho no fundos, que sempre foi um depósito de coisas velhas". Mas é claro que já não havia mais nada lá. A única coisa que restava era algo bastante fraco manifestado na vozinha de C. , sua filha, e tão fraco que lhe pedia alimento, a "deinha". Tipo, mas como você não vai me alimentar, você não é a minha mãe?
Com uma voz suave, "sem querer parecer desagradável" você volta lá no complexo, quer dizer, no desenho e para sua surpresa ele já havia se transformado. Como se tivesse se mostrando mais como ele realmente era. Um bordado de lãs coloridas muito parecido com os de sua mãe. Você se lembra da história da colcha de retalhos? Toda aquela herança matriarcal que é passada de mãe para filha por gerações e gerações? E o motivo do bordado era de dois bonecos palitos brincando de bola. Uma situação infantil e lúdica que você agora talvez esteja se desprendendo.
Todo o resto do sonho lhe fala do distanciamento, da perda, de desidentificação com relação à mudança que aconteceu. A morte nos sonhos nos fala dessa transformação profunda. Mas esta representação na imagem da morte de C., sua filha é muito dura ( apesar disto demonstrar o valor do ocorrido), e aí, você a vê partindo e se despedindo. Mas não é ela quem está indo, é VOCÊ quem está se distanciando e ainda subindo para um novo nível de seu desenvolvimento. O receio da perda, não de C., mas de sua mãe tem a ver com aquela herança (complexo?) materna (uma postura, uma característica das mulheres de sua família, um condicionamento desde a infância). A sensação de perda é inevitável mas pode ter certeza que você agora é uma pessoa mais inteira.
Estas coisas só acontecem com pessoas
sérias que possuem um comprometimento para consigo mesmas. Que você encontre as forças
necessárias para tal empreendimento e que os deuses lhe protejam. 
(R) Sérgio Pereira Alves
(0xx31) 3335-7146